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Algumas poesias - Parte 2


PERGUNTAS

Onde você estará daqui a cinco anos?
Onde você estará morando?
Qual será a sua cidade?

Quem estará contigo?
Seus filhos? Seus pais?
Seu namorado?
Você estará sozinha?

O que terá no seu futuro?
Escola? Trabalho?
Festa e diversão?

Como será sua saúde?
Como você estará financeiramente?
Quantos bens você terá?

Seus desejos são realizáveis?
Ou são apenas sonhos?

O que você está fazendo hoje
Para que isso aconteça?
Seus atos condizem com suas vontades?
Está plantando corretamente o que pretende colher?

Seus filhos irão querer viver contigo?
Seus amigos irão te querer por perto?
Seu namorado a pedirá em casamento?
Ou você será apenas um estorvo na vida deles?

O que você está fazendo para que isso aconteça?

São apenas perguntas
Mas,
Será que você tem as respostas...?




TELEVISÃO

São oito horas
Noite
Ligo a tevê
E passo os canais...

Nada me interessa
Novelas, seriados, filmes,
Repetidos
Repetitivos...

E me estresso
E não me controlo
Quando chuto o aparelho
Que cai do módulo
E estoura no chão...

E aproveito para chutar mais
Naquele aparelho imóvel
Com fumaça subindo
E sem resistência...

Como um vencedor
Olho para aquilo imóvel
Sem ninguém na tela
Sem vozes
Nem movimento...

Ganhei da novel
Venci o filme dublado
Derrotei o Superman...

Agora, mais calmo,
Posso pegar meu uísque
O meu livro preferido
E ver o que Freud falou
A meu respeito...


FILHOTE

O caminho está aí
Na sua frente
E você não vai...

Por quê?
O que te impede?

Tudo bem
Vou te ajudar
Vou preparar sua mochila
Colocar comida, roupas,
Tudo que você vai precisar
Na viagem
Está bem?

Mesmo assim você não vai?

Agora
Não estou entendendo mesmo...

Vive reclamando de tudo e de todos
Que nada vai bem
Que quer coisas diferentes
E, quando pode mudar,
Não muda...

Parece criança barriguda
Piolhenta
Daquelas bem teimosas...

Tudo bem,
Vou te dar mais uma chance
Mas, presta atenção,
É a última...

Vou ficar ao seu lado
Mas não por muito tempo
Então seja rápida...

Vou te ajudar a caminhar
Serei a sua muleta
Mas, lembre-se de meus limites,
Estou com os dias contados...

Se você quiser me ajudar
É fácil,
Basta criar asas,
E batê-las,
E voar...

E não tenha medo de cair
Seja como o filhote da águia
Empurrada pela mãe
Do ninho, no precipício...

Se cair, morre,
Mas nunca uma águia morreu
Por causa dessa queda...

Todas as águias voam
Antes do toque final
No solo...

Seja assim,
Por favor,
Voe, com suas próprias asas,
E atinja os mais altos céus,
Conheça as mais longínquas montanhas...

E aí, então,
Quando voltar,
Te receberei
De braços abertos
E só então estaremos completos...
SOMBRAS

Como um cego
Ando por aí
Quase sem ver nada...

Vejo apenas luzes
E sombras
De pessoas
Homens
E mulheres...

Estendo os braços
Não quero esbarrar em algo
Que me machuque...

Ando devagar
Posso tropeçar
E cair...

Apesar dos cuidados
Esbarro constantemente
E firo meu coração...

Estou atento
Mas caio quase sempre
E machuco minha alma...

E as sombras vêm
Com vozes diferentes
Sotaques diversos
Jeitos e trejeitos
Cheiros e cores
Envolventes
Que me confundem...

Me usam
Me entrego...

Fico frágil
Sou enganado
Por sombras sem sentimentos...

Caio
Levanto
Tento de novo...

Sombras vêm
Sombras vão
E continuo
Como um cego
Procurando alguém
Que seja a última
A única
Para meu futuro...



TERRA DO NUNCA

Estou acordando
Bocejo, sono,
E nem dá tempo
Sinto o pó de pirlimpimpim sobre mim
E começo a voar...

Peter Pan passa raspando
E me arrasta com ele:
- Vamos visitar as sereias...

E vou.
Afinal, elas são lindas...

Brincalhão como sempre
Peter Pan visita Capitão Gancho
Que tira um pequeno cochilo
E lhe puxa o nariz
E se esconde...

Morremos de ri quando Gancho toma um susto
E desconta em Barrica
Dando-lhe um enorme chute...

Peter Pan não perde o costume
De aprontar com Gancho, o capitão,
E estou ao seu lado, Peter,
Na mesma idade,
Voando e voando...

A Terra do Nunca é nossa
E o tempo não passa
Não sinto a idade...

Brincamos com Sininho
Ouvimos as histórias da Wendy
Aprontamos com os Meninos Perdidos
E tomamos banho com as sereias...

Todos os dias
Todas as horas
Ainda sou menino...

Não aceito virar adulto...



CAFÉ

Café simples
Café composto...
Café com açúcar
Café com adoçante...
Café forte
Café fraco...
Café frio
Café quente
Café morno...
Café puro
Café com leite?

- Não, obrigada.
Pode ser um capuccino...?










ALMA GAY

Sou homem
Machão
Machista
Heterossexual...

Sou poeta
Tenho a alma gay...

Meus sentimentos
São femininos
Pois amo
Choro e sofro
Como só uma mulher pode fazer...

Meus atos
Meus preconceitos
São masculinos.
Bato e apanho
De punho fechado
Como só o homem pode fazer...

Mas escrevo
Com o coração
Mandado
Pela minha alma gay...

Te beijo
Te desejo
Te amo
Como só um homem é capaz...

E faço poesias pra ti
Exteriorizando minha emoção
Como só a minha alma é capaz...

Minha alma gay...


VENTO NO LITORAL

À tarde quero descansar
Chegar até a praia e ver se o vento está forte
Vai ser bom subir nas pedras
Vou deixar que as ondas me acertem
E tentarei te esquecer...

Deixei meus passos
Mas você era um anjo
Voou sobre a praia
E não viu minhas pegadas...

Planejei
Construí nosso castelo
Mas você sempre brincou comigo
Como uma criança
Aos dezesseis anos...

Hoje você me abandonou
Outro te dá prazer...

Me deixou com meus dias mal vividos
Minhas noites mal dormidas
Sem motivos para viver...

Vou deixar que as ondas me acertem
E me levem
Para o fundo do mar...

Vou deixar que a água salgada
Encha meus pulmões
E meu coração vai parar
E te esquecerei...

Ei, olha só o que achei: cavalos marinhos...

(Inspiração: Vento no litoral Legião Urbana)


CANSEI DO VIRTUAL
Cansei de Orkut, cansei do MSN,
Cansei de computador...

Quero olhar nos olhos,
Quero sentir calor
Quero pegar no colo,
Quero sentir amor...

Cansei do virtual, isso é irritante,
Tudo igual, a todo instante.
Já tive namoradas,
Encontros emocionantes,
Acabaram de repente,
É assim a todo instante...

Cansei de computador, isso é frustrante,
Não quero ser mais uma máquina.
Desculpa não responder
Mas eu estava viajando...”
Será verdade? Será mentira?
O que estarão tramando?

Cansei da falsidade da Internet
Quero seguir pra frente e não para trás...

Vou quebrar minha máquina
Vou jogá-la no chão,
E com um pedaço de pau
Transformar tudo em cacos...

Cansei de internet
Cansei das coisas pela metade...

Cansei de computador,
Cansei de ser manipulado,
Quero mandar na minha vida tendo você do meu lado...


SOU ONDAS

O mar
Tanta água
Vindo em ondas
Batendo nas pedras...

Tenta movê-las?

As pedras
Imóveis na praia
Vêem as ondas vindas em sua direção...

Tenta contê-las?

É inútil.
Tudo é inútil e tão necessário...

A vida
Como um mar.
Às vezes somos ondas
Devastamos
Arrastamos o que temos pela frente
Até a estabilidade da pedra que surge...

Às vezes somos pedras
Bloqueamos sucessos
Arrasamos sonhos
Por falta de capacidade de sonhar...

Às vezes sou onda,
Noutras sou pedra.
Contradição...

Tensão da liberdade de ser,
Apreensão pelos resultados de estar.
A incerteza do pensar e agir...

Sou ondas
Estou ondas.
Estive pedra...



ROMANCE VIRTUAL

MSN, Orkut, Gazzag
Você escolhe a forma
Onde e quando nos encontraremos...

Verei seu rosto
Lerei seu perfil
Gostarei de ti...

Seu papo é gostoso
Sensual quando tiver que ser
Profissional quando necessário
Pessoal e intransferível...

Seu emoticons
Seus símbolos
Letras q c fazem entender...

Talvez tenha uma câmera
Onde possamos nos ver
E nos expor
Talvez até em intimidades...

Com toda exposição
Não terei certeza de nada
Das verdades e das mentiras
E tudo balançará...

E acabaremos virando amigos
E acabaremos nem sendo amigos
E acabaremos nos excluindo
E tudo acabará...

Até o próximo encontro
Com outro contato
Com outra história
E começar tudo de novo.
Recomeçar,
E mais uma vez:
Amar...



PEDRA NO RIO

Sou uma pedra
No meio do rio
Imóvel...

Sou uma pedra de rio.
Às vezes a água sobe
Com as chuvas
E me encobre
Escondendo-me.
Às vezes a água desce
Com a seca
E apareço mais...

Normalmente
Há bastante água
Mas não me encobre.
E eu fico ali
No meio
Isolado como uma ilha
Sozinho...

As pessoas me olham
Comentam a beleza que causo
Ali, sozinha,
No meio do rio,
Em meio à natureza...

Esforçam-se
Sobem em mim
Fazem poses
Tiram fotos.
Eternizam-me...

Mas, todos se vão,
E eu fico.
Afinal, sou uma pedra,
Uma pedra de rio
Sozinha
Esperando a cheia
Para ver se me afogo
Definitivamente...

Mas sei que não vai acontecer...

De repente
Vejo as águas
Que não me destroem...

As águas me rodeiam
Me evitam
E não me arrastam.
Dão a volta
Mas não me abalam...

Me sinto forte
Uma verdadeira rocha
Uma montanha...

Tão forte que sinto vontade de gritar
Mas, não grito...

Não grito
Não me mexo
Não me solto...

Não sou livre...

Sou apenas
Uma pedra.
Uma pedra de rio
Sozinha...

Esperando sua visita
Quem sabe
Para tirar mais fotos
Em cima de mim...

E indo embora...

Me deixando
Mais uma vez
Sozinha no rio...






VIDA VIRTUAL

Uma deixa mensagem no Orkut
Fala que me ama
Diz que me quer
Que não vive sem mim...

E você briga.
Diz que tem ciúmes
Fica sem conversar
E faz biquinho de raiva...

Outra manda mensagens no celular
Que você lê
E vê que ela me ama
E vê que ela me quer
Mas mora tão longe...

E você se irrita.
Diz que vai embora
Nunca mais vai olhar na minha cara
Promessas e mais promessas...

No e-mail, mensagens sacanas,
No site, comentários bem pessoais,
No telefone, uma voz feminina...

E você se incomoda
Não quer falar comigo
Não vai mais fazer cafuné
Só faz o quer...

Amor, não fica assim.
Tem tanta gente no mundo
Mulheres me procuram
Mas são todas virtuais, você não vê?

Real? Só você...

Pense assim
Todas elas desejam e sonham
Mas quem me tem?
Só você...




MICROSCÓPICO

Tenho certeza
De que tudo começou
Com um beijo...

E não deve ter sido um simples beijo
Desses comuns
No rosto, nos lábios...

Deve ter sido um beijo na alma
Que me estimulou
A lutar
A querer chegar...

Não me lembro de nada
Mas aposto no beijo,
Nas mãos se tocando
Pernas em frenesi
Coxas em coxas
E o beijo
Longo...

O orgasmo...

Eu fui o único
Apenas um iria conseguir
E fui eu...

Não me lembro de nada
Se nadei
Se corri ou pulei
Mas sei que consegui
Chegar em primeiro...

A minha primeira vitória
Tão pequeno
Microscópico
E superei milhões
De concorrentes...

E virei poeta
Para expressar o amor
Que meu pai e minha mãe
Tiveram
Ao me conceber...

Estou, novamente,
Na batalha
Na concorrência da vida
Contra milhões...

Mas, vou conseguir novamente
E vou superar tudo e todos
E chegar ao topo...

Ao topo do mundo...



TEMPO

Entrei na máquina
O tempo está em minhas mãos
E volto
Vinte, trinta anos atrás
Sou um rapaz
Com minhas dúvidas
E minhas certezas...

O que vou mudar?
O primeiro beijo?
A primeira experiência sexual?
A primeira tragada do baseado?

O que mudar?

Não
Não vou mudar nada.
Naquele momento
Meus acertos e meus erros
Eram para acontecer...

Sem tirar nem pôr
Sou reflexo daquilo que aconteceu
Quando tinha que acontecer...

Vou um pouco mais para frente
Já tenho um filho
Sadio e lindo.
Como é bom...!

Deixa estar
Não vou mudar também
Apesar de errar na tabelinha
O filho só me deu alegria...

O tempo passa
Entro no Banco do Brasil,
Saio do Banco;
Caso,
Separo;
Estou bem,
Fico mal,
Volto a ficar bem...

O que mudar?

Ainda não tenho nada a mudar
Tudo era para acontecer
Como aconteceu...

Voltei ao presente
E enxugo as lágrimas de saudade
E volto
Vou viver o presente
Vou viver o agora
Com meus erros e acertos atuais
Os problemas e os prazeres de dois mil e seis...

Vou viver o presente
E posso te dar um presente:
Vem comigo...!

Carpe diem...



CRIANÇA

Joguei bolinha de gude
Rodei pião
Virei figurinhas...

Futebol com os amigos
Descobertas
Invenções...

Bonecos criavam vida
Sonhos reais
Espírito que viajava...

Vivia o agora
O momento
Nunca me preocupava com o amanhã...

Hoje, tudo mudou,
As preocupações de gente grande
Me pegaram
E me destruíram...

Vivo o ontem
E o amanhã...

Hoje é dia das crianças
E lágrimas caem
Pois sei que sou moleque
Brinco com minhas figurinhas virtuais
Jogo bolinhas de gude on line
E rodo piões...

Mesmo moleque
Não vivo o hoje
E sofro por isso...

Não seja como eu
Viva como uma criança
Viva hoje
Apenas hoje e seja feliz...



A FLAUTA

Quando fui monge
Aprendi a entender a música
Os dedos preenchendo furos no bambu
O som invadindo ouvidos
O prazer de criador
O sonho realizando...

Depois fui camponês
Conheci o poder da terra e da água
Precisei do som, mas fugi
Eram só animais
E o bambu se desfez...

Como mulher, fui bruxa
Dominante, assustadora
Dominei a música
Tambores, bambu, cordas
Superior, exaltei e morri...

Romano
Guerreiro, sem tempo, sem luz
Uma única vez o menino
Mostrou o som que fazia
Ignorei, pois era guerreiro
E não me atrevi...

Moderno, não sou ninguém
Porém está quase no fim
Meu descanso já é prometido

Tudo volta ao normal
Olhos abertos te sinto
Olhos fechados te ouço
Na luz, aprendo, sou menino
Na sombra, ensino, sou homem...

E o que era bambu
Virou metal
Se transformou.
O som continua o mesmo
O espírito continua idêntico
E tudo chega afinal
Ao final...



FLERTE

Rodoviária do Tietê.
Depois de duas horas
Cheguei.
Estou na Capital...

Metrô.
Loucura essencial
Para chegar onde quero...

Mochila nas costas
Lista de compras no bolso
Lá vou eu para as filas:
Bilhete
Catraca
Trem...

Fico de pé
Encosto no fim do vagão.
Tenho todos à minha frente...

Vejo homens
Olho mulheres
Leio propagandas...

Estação Tietê
Estação Tiradentes...

Ela entra
Senta
Me vê...

Encara.
Eu a encaro.
Ela desvia os olhos...

Linda...

Boca perfeita
Sorri
Não sei de quê...

Olhos curiosos
Que voltam
E me vêem.
Encaram
Entram em minha alma...

Também a invado
E sorrio.
Ela retribui...

Estação Luz
Estação São Bento...

Levanta-se
Espera o trem parar.
Estação Sé.
Ela desce
Vira e me vê...

Pára.
As portas do trem se fecham
Ela pisca.
Ela sorri
O trem acelera...

Ela manda um beijo
Com um gesto...

Inesquecível...

Na grande cidade
Na super Capital
Onde dois corpos
Jamais voltam a se encontrar...

Onde um flerte
Nunca vira coincidência...





TEU BEIJO

Adoro
Quando encosto minha boca na sua
E nossas línguas se encontram,
Se tocam,
Se acariciam...

Numa busca infinita
Te encontro
E te perco...

Minha boca deixa a sua
E acha seu pescoço.
Te beijo
E me perco entre seus cabelos
Úmidos.
Sinto seu cheiro
De fêmea no cio...

Seu corpo
Nu
Molhado
Sente minha boca
Em diversos lugares
Expostos e escondidos
Sedentos
De amor e sexo...

Seios
Umbigo, barriga,
Coxas, pernas,
Dedinhos...

Te encontro
Entre beijos furiosos
Molhados.
Te viro e reviro
Ao avesso.
Obedecendo ao desejo do corpo:
Puro tesão...




BELA FLOR

Não tenho mais pernas
Tudo treme
Estou cansado
Não consigo mais andar...

Tenho que subir esta montanha
É a última coisa que me falta
E tenho que conseguir...

Me disseram que lá em cima
Tem a mais bela flor
A única do mundo
E é o que falta eu te dar
Pois já te dei tudo...

Me arrasto
Agarro, arranho, sangro,
Mas chego ao topo...

A mais linda das flores me espera
Nunca vi igual
Única
A maior raridade do Planeta...

Levo minha mão
Vou arrancá-la
Mas não consigo...

É demais pra você
Não farei isso...

Tenho uma idéia melhor
E vou até o precipício
E me jogo...

Meu corpo se esfacela,
Dilacera e se desfaz
Aos poucos
Como você merece...

A última coisa que te dou
É a minha morte,
Pois a vida sempre foi sua...



PRESSA

Tenho pressa
Quero ter minha vida
Tranqüila à beira-mar...

Saí na frente
Te esperei
Você não vem
Nunca chega...

Corro novamente
Não posso caminhar
Tenho pressa...

Você desiste
Cansa, fica pra trás.
Sinto muito
Preciso continuar...

Tenho pressa
Quero chegar.
Realizar meu sonho...





DOIS ANIMAIS

Olhares, que sugerem,
Sussurros que se fazem entender,
Sinais, que definem,
O encontro, inevitável...

Roupas, que se perdem,
Nudez, exposição da carne,
Beijos, sensualidade à flor da pele,
Roçar de corpos, sensibilidade...

Calor, aumentando e transformando,
Penetrações, prazeres expostos,
Prazer, busca constante,
Orgasmos, premiação dos anjos...

Olhares, satisfação,
Sussurros, sugestivos,
Sinais, mostrando o caminho,
Repetições, inevitáveis...






TEATRO

Subam as cortinas
O espetáculo vai começar...

Eu sou o astro,
Faço rir
Faço chorar,
Tenho todos os sentimentos
Ao seu dispor...

Uso máscaras
Tenho véus,
Me escondo de tudo...

Mas, quando a máscara cai,
Ninguém nota,
Porque eu continuo a interpretar
O meu papel
O único possível...

O papel de um homem
O papel de um poeta,
Que sofre e que chora,
Mas que também ama
E é feliz...

São diversas peças,
Em diversos atos,
E sou o artista principal...

Todos os dias
Tem um novo espetáculo,
Uma nova estréia,
E o encerramento
De uma temporada...

Platéia querida
Obrigado pela presença
E voltem sempre...

Podem abaixar as cortinas...



MELISSA

Seus olhos
Me invadem
Me desnudam...

Seus olhos
Cor de mel
Cor de Melissa...

Eu não devia ter deixado
Você me invadir.
Não devia...

Você aproveita minhas falhas
Tenta descobrir
De onde te conheço.
E me invade...

Conhece minhas vidas
Relembra minhas últimas seis mortes.
Passado,
Futuro...?

Uma invasão
Secreta
Sem confissões
Pessoal
Única
Intensa...

Eu falhei contigo
Não devia ter deixado
Você me olhar
Me encarar
Me invadir...

Eu falhei contigo:
Você podia até conhecer meu corpo
Mas não devia ter lido minha alma...



A CAVERNA

Estou na caverna.
Tudo está escuro
Não reconheço este lugar...

Dormi.
Quando acordei estava aqui,
Apalpando as paredes
Procurando luz...

Nada vejo,
Nada ouço.
Estou sozinho nesse lugar estranho...

As vozes que escuto estão dentro de mim
As cores que vejo são vagas lembranças...

Cadê o verde de seus olhos?
Onde está o brilho do sol?
O azul do mar?
O branco da espuma das ondas...?

Onde está tudo?
Como vim parar aqui?
As dúvidas me acompanham...

Ando por muito tempo...
Continuo apalpando as paredes
Procurando a saída...

Canso.
Sento-me.
Vou esperar...

Não sei o quê, mas vou esperar...

Enquanto espero
Tenho boas lembranças de minha vida.
Também tenho lembranças ruins...

Às vezes, choro.
Muitas vezes, sorrio.
Respiro fundo para prosseguir caminhando...

E prossigo...

Sinto o ar do lado de fora
Sei que a luz está ali, ao lado,
Tão perto
E tão distante...

Tudo continua escuro.
Como chegar até a luz?
Como ver o brilho de seus olhos?
Não sei.
Não tenho respostas...

Desisto!
Vou esperar as coisas acontecerem.
Espero a luz de seus olhos verdes
O som de sua voz com sotaque único
O calor de seu corpo...

Só me resta isso: esperar...



ÁGUA E VINHO

Dois copos
Iguais
E tão diferentes...

Água
Em um deles,
Incolor,
Saborosa,
Vital...

Vinho
Em outro
Vermelho,
Místico,
Embriagante...

Água e vinho
Juntos
Não tem sentido
Sem lógica
Sem sabor...

Não consigo ser
Nem água
Nem vinho...

Sou apenas um suco
De uva, talvez,
Sem cor,
Sem sabor...

Desculpa não te embriagar
Não deixá-la atordoada
Como deveria ser...

Mas, existem portas sem trincos,
Que você pode abrir
Mas não estarei do outro lado...

Quando tiver coragem
Beba água
E abra uma...

Quem sabe,
Estará aí
A realização...

Beba vinho
E abra outra...

Místico
Sem máscaras
E corajoso...

É esse?

Eu não estou atrás das portas
Porque já abri a minha
E você conheceu meu suco...

Doce,
Saudável e embriagante...

Tenho um pouco de álcool
Mas sou saudável,
Deixo tonta
Mas não sou vital...

Desculpa,
Mas, esse sou eu...

Nem água,
Nem vinho,
Apenas um copo de suco...
PALHAÇO

Meu rosto está manchado
As lágrimas sujam minha maquiagem
E me traz à realidade
De um mundo cruel
Sem sentimentos...

Faço rir
Dão gargalhadas por minha causa
Mas não sabem da minha dor...

Consigo fazer rir mesmo estando triste
Sou um artista
Nada mais que isso
Um artista que finge
E disfarço meus sentimentos
Mostro só o que querem ver...

Sou assim
Vivo assim
Dia a dia...

Sou um palhaço
Faço a platéia sorrir
Na qual você se encontra,
E choro sozinho
Na solidão do meu quarto...







NAQUELE BAR

Estou sentado
No mesmo bar
Que tantas vezes
Nos encontramos...

O uísque no copo,
Com gelo,
Que giro,
Com o dedo...

O pensamento está longe
Nos seus olhos
Nos seus cabelos molhados
Saindo do banho...

Que saudades,
Mas, tudo acabou...

E, neste bar,
Escuro,
Tudo é triste...

Neste bar,
Quase vazio,
Bebo meu uísque,
Cabeça baixa,
Olhos tristes
Fixos no copo de uísque...

Mais um gole,
Mas,
Desta vez,
Tem gosto de veneno...

Melhor se fosse
Sofreria menos...


DEIXA EM PAZ

Quer saber?
Pára de me encher o saco
Vai cuidar da sua vida
Me deixa em paz...

Você leva em conta o que digo?
Deixa de ser idiota.
Eu sou falso
Já te falei
E você cisma em não acreditar...

Você ainda acredita em mim?
Quer que eu seja exemplo?
De quê?
Por quê?
Eu sou um idiota, lembra?
E por que você vive falando de mim...?

Se eu falo,
Você se incomoda.
Se eu calo,
Você se estressa.
Ah, quer saber?
Vai catar lata ...

Tem tanta gente melhor que eu
Espelhos ótimos para você se refletir.
Aliás, reflita mesmo,
Reflita nas burrices que você anda fazendo
E deixa o idiota aqui em paz...

E, se não fui bem claro,
Vai pra puta que pariu!
Entendeu agora...?

Então, me deixa em paz...
Deixe que digam, que pensem, que falem...”



CAIXA VAZIA

Sou uma caixa
Um pacote
Um embrulho...

Estou em suas mãos
Pode abrir
Mas, cuidado com o que vai encontrar...

Puxe a fita
Corte o laço
Rasgue os papéis
Me desembrulhe...

Quem sabe você encontre uma caneta
Que escreva palavras de amor
E emocionem os apaixonados...

Posso conter uma roupa
Que agasalhe um pobre coitado
E dê esperança a alguém...

Posso conter flores
Especiais para você
É seu aniversário...

Ou posso ser uma caixa vazia
Não conter nada
Inútil...

Ou não...

Talvez o melhor seja ser uma caixa vazia
Pois você a preencherá como quiser:
Com os seus melhores livros
Os melhores cds
As cartas românticas
Os bibelôs mais secretos...

O melhor da caixa vazia
É que, nela, você coloca o que quer
Segundo sua vontade...

Sou uma caixa
Vazia
Em suas mãos
Use com sabedoria
E consciência
E me transforme
No que você quiser...

Abra...






CORREDOR DE HOSPITAL

Ela entra no corredor
Mais exames a fazer
Cabeça baixa
Chateada por acordar cedo
Mesmo assim, anda,
Segue entre pessoas estranhas...

Ele entra no corredor
Do outro lado
Trabalhando, mais um dia,
Cabeça erguida
Vê a mulher, loira, alta,
Lá no outro lado do corredor
Vindo...

Ela vem
Começa a erguer a cabeça
Vê aquele senhor
Bem vestido
Vindo...

Ele vai
Começa a abaixar a cabeça
Não quer encará-la
Timidez...

Ela, vinte e dois anos,
Ele, quarenta e dois,
Ela, solteira,
Ele, casado há uma década...

Ela anda
E seu coração bate mais forte,
Ele anda
E seu coração bate mais forte...

Estão pertos
Ele levanta os olhos
Verdes...

Mais pertos
Ela o encara
Com seus olhos azuis
E os baixa...

Está vermelha
Ele percebe...

Câmera lenta
O tempo pára
Ele sente seu cheiro
Ela sente seu calor
Se afastam para não esbarrar
Mas se esbarram...

- Desculpe-me...

Um choque
Apenas um choque
Que percorre suas espinhas
Ao mesmo tempo...

Ela segue
Não olha pra trás
Senta-se
Está tremendo...

Ele segue
Não olha pra trás
Sai porta afora
Não volta...

Nunca mais se viram
Nem se esqueceram
Almas gêmeas
Afastados ao nascer...

Metades...





INCOERÊNCIAS

Não sou nada,
Nem ninguém,
Nem gente,
Nem pessoa,
Nem Fernando...

A minha luz não brilha
É escura
Não tem brilho
Nem clarice
Como Lispector...

Não sei brigar
Não apanho
Ninguém me espanca
Nem a Florbela...

Não uso roupas
Não tenho estandarte
Não me deram flâmulas
Quanto mais bandeira
Como deram ao Manuel...

Não sou ninguém...

Coloco palavras
Em uma ordem incoerente
Desconexas
Essencialmente dispensáveis à cultura
Inapropriadas para qualquer evolução
Desaconselhadas para leigos e troianos...

Palavras de âmago vazio...

Agradecimentos:
A Drummond, Quintana, Cecília,
Neruda, Lorca,
Suassuna.
Todos os Andrades,
Todos os Araújos,
Todos os Vinícius,
Todos os Moraes...

Aos mortos que me visitam
Aos vivos que não me conhecem
E aos zumbis e semimortos que são como eu...






FANTASMA

O rapaz passou
A enfermeira olha pra ele
Ele não se identifica, está sério...

Ela, não consegue perguntar nada,
Nem nome, nem o que ele pretende.

Invade a recepção,
Sem identificação,
Sem palavras nem comentários...

Segue o corredor, a enfermeira atrás,
Curiosa,
Onde será que ele vai?
Ele anda, ela segue...

Anda, não olha pra trás,
Apenas anda...

A sirene da emergência toca
Ela precisa voltar
Chega alguém na ambulância...

Ela tem dúvidas:
Deixar ele seguir
Ou chamá-lo e pedir explicações...?

A ambulância encosta
Ela precisa decidir...

Ela decide e volta para a recepção,
O rapaz segue seu caminho
Corredor adentro...

A ambulância encosta
O motorista desce, rapidamente,
Acidente”, ele comenta,
Óbito”, se escuta quando abre a porta do carro,
Mais um”, ela pensa, enquanto puxa a maca...

O susto, o arrepio:
Aquele rosto, aquela camisa, aquela calça,
Já eram conhecidos pra ela...

Há alguns minutos
Aquele mesmo rapaz havia chegado ao hospital
E seguia pelo corredor
Em direção ao necrotério: o espírito chegou antes...



CERTO E ERRADO

Cansei de tentar te entender.
Acho que você está perdida
E quer me levar junto...

Eu vou
Fazer o quê?
Não tenho outra opção...

Quem sabe amanhã
Tudo muda
O roteiro
As palavras
As aventuras...

Positivo, negativo,
Brigas e desavenças,
Reconciliações...

E eu, ali,
Ao seu lado
Saco de pancadas.
Marionete...

Você muda
Constantemente
Mas, sempre,
Segundo conceitos alheios...

Nunca estou cem por cento
Nem certo, nem errado...

Pois aprendi
Que, até um relógio quebrado
Está certo
Pelo menos
Duas vezes por dia...



FRANCO-ATIRADOR

Subi escadas
Tentando atingir o mais alto nível geográfico
Dentro do prédio virtual.
No topo do prédio
Vi pessoas passando, indo e vindo,
Todas com fotos e perfis
Em uma cidade chamada Orkut.

Alguns batiam em minha porta
Às quais, abria com prazer;
Outras portas eu empurrava
Mostrando o meu trabalho, como um vendedor,
Ambulante virtual.
Alguns me aceitaram,
Outros, não, me rejeitavam na hora
E até trancavam a porta.

Alguns amigos, algumas amigas, tantas ilusões.
Pessoas que acham que sabem;
Pessoas que sabem que sabem;
Mas tantas que nem sabem o que sabem...

E eu lá na cobertura
Arma na mão, fazendo mira e atirando.
Algumas caíam, outras só balançavam,
Mas, a todas eu acertava.
Algumas entendiam, eu sou normal, sou poeta,
Outras, não, achavam que eu era ator de cinema
E que meus tiros eram de festim
E que não machucariam...

Tantos tiros, tantos corpos,
Até que o tiro ricocheteou e me acertou
Bateu no coração...

Estou morrendo,
Quem vai me enterrar? Onde é o cemitério?
Lixeira? Pasta temporária?...
Onde ficarei pro resto da minha vida virtual?
Quem eu levarei comigo?

Pois sou franco-atirador,
E sempre levo alguém comigo
Sempre levo alguém
No coração...



ÓDIO

Quero seu ódio
Inteiro
Por completo...

Já te falei
Você só é verdadeira
Quando odeia.
Quando me odeia...

Suas palavras
Verdadeiras
Fluem pela língua
Às vezes maldosa
Às vezes provocante...

Palavras
Verdadeiras e profundas
Que resolvem e agravam problemas
Mas que são problemas
Realmente...

Ódio e amor
Diferentes
Pois um é falso
E o outro
Completamente verdadeiro...

Sentimentos:
O ódio é verdadeiro;
O amor é mistura.
Não confio nele...





MAIS UM

Ando devagar
Não tenho pressa
Não tenho pra onde ir
Não quero chegar a nenhum lugar...

Os rostos que passam por mim
São diferentes
E tão iguais...

Que Deus criativo...

Brancos, pretos,
Altos, baixos,
Homens, mulheres...

E eu no meio...

Meu rosto é mais um
Diferente e igual
Como todos os outros...

Meus pés andam devagar...

Sigo numa calçada qualquer
Que vai para uma praça qualquer
Como tantas e tantas por aí...

Meus olhos são cinza.
Minha pele?
Está sem cor...

Meus passos não têm direção...

Sou mais um
Numa multidão indefinida...

Sou único e exclusivo
Como milhões que estão por aí...



AQUÁRIO

Dou dez passos na direção errada
E bato a cabeça...

Mudo a direção,
Sem noção para onde estou indo
E outra cabeçada é inevitável...

São tantas as idas e vindas
Tudo limitado
A um quadrado imaginário
Que liga a casa ao trabalho...

De um lado e de outro
Paredes invisíveis
Como vidro
Me protegem
E me prendem...

Não quero mais ser peixe
Dentro deste aquário,
Quero o mar,
Quero perseguir e ser perseguido
Quero desvendar novos corais,
Quero nadar sozinho,
Fazer eu mesmo o meu caminho...

Não consigo mais
Viver preso
Dentro deste aquário...

E como uma possibilidade
Já vejo pequenos arranhões
Que com certeza
Se transformarão em rachaduras...

E eu sempre disse isso:
Ou minhas cabeçadas quebram o vidro,
Ou quebram a minha cabeça...

Estou quebrando os vidros...



NINGUÉM EM CASA

Enfio a chave na fechadura
Viro duas vezes
A porta se abre.
Um cheiro suave
Hoje a faxineira veio...

Entro
Está tudo arrumado,
Minhas coisas limpas
Ordenadas
Como eu sempre gostei
E pago para ter...

Na cozinha
Aquele cheiro de comida do passado
Não existe mais
Apenas um prato arrumado na mesa
Um copo.
Para uma pessoa apenas
Para mim...

A cama de casal
Só tem um travesseiro
E, de tão pequena que era,
Agora está enorme...

Gostaria que você estivesse aqui
Para dividir comigo
Minutos, horas,
Sentimentos...

Como eu gostaria de ter você ao meu lado
Outra vez...

Gostaria de ter participado na sua decisão
Quando resolveu partir
Sem ao menos me avisar
Sem me preparar
Para sua morte...

Nunca mais será como antes
Vou esperar uma nova vida
Para estar novamente ao seu lado...



NADA A PERDER

Estou andando
Meu carro é novo
Estou bem agasalhado
E o dinheiro no bolso
Não me dá medo de avançar...

A pedra na estrada
Me faz parar
E eu perco meu carro
Para bandidos
Que prepararam a armadilha...

Mesmo assim
Continuo andando
E começo a sentir o vento
Batendo no rosto
O que não acontecia
Quando estava no carro...

Não tenho medo
Apesar de perder o carro
Pois estou bem agasalhado
E com dinheiro no bolso...

No início, sem o carro, foi difícil,
Mas, mais difícil ainda,
Foi quando percebi
Que o dinheiro acabou...

Não devia ter comprado
Tanta coisa inútil
E me divertido tanto
De uma forma tão fútil...

Mas, continuo andando,
E, mesmo sem dinheiro,
Me resta um pouco de confiança
Pois estou bem agasalhado...

Mas, na esquina,
O homem sem roupa
Me dói o coração
E dou meu agasalho...

Um misto de medo e prazer
Em perder a segurança
Mas senti amor
Em ajudar ao homem...

Continuo andando,
Desta vez, nu, sem roupas,
Sem dinheiro e sem carro...

Sinto frio, sinto calor,
Me corto, me machuco,
Mas só então sinto a força de Deus,
A natureza me tocando
E não tenho mais medo...

Eu não tenho mais nada a perder...

Posso ter mais do que tinha
Pois não tenho mais medo de arriscar,
Agora só confio em mim...

Percebi que só tive coragem,
Que só acreditei em mim,
Quando não tinha mais nada
A perder...


TALVEZ

Talvez eu veja seus olhos,
Verdes
Combinando com o mar,
Ou azuis
Reluzindo a cor do céu,
Ou amarelos
Como o Sol...

Talvez eu acaricie seus cabelos
Compridos ou curtos
Loiros ou pretos
Lisos
Ou encaracolados...

Talvez eu sinta seus lábios
Num beijo
Ou na ponta de meus dedos
Tocando
Sentindo sua língua
Sugando, falando, gemendo...

Talvez eu te veja
Talvez eu te ame
Talvez eu viva com você...

Ou não...

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