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Algumas Poesias - Parte 3


CARONA

Entre
Fique à vontade
Coloque o cinto
Vamos rodar...

Onde você quer ir?
Eu?
Qualquer lugar.
Contigo ao meu lado
Vou a qualquer lugar
Sem mapas
Nem bússolas...

Faço o que você mandar
Paro, ando, viro,
Ou sigo em frente
Sempre...

Podemos conhecer muitos lugares
Praias, montanhas,
Capital ou interior,
História, geografia,
Tudo está em nossas mãos...

Vem
Vamos
Eu realizo seus sonhos
Você realiza os meus...?

Larga de ser boba e vem comigo
Existe um mundo novo e eu quero te mostrar...
Que não se aprende em nenhum livro
Basta ter coragem pra se libertar, viver, amar...”
Hyldon Na sombra de uma árvore





HOMEM INVISÍVEL

Ando pelo corredor
Vejo olhos e corpos em meu caminhar
Sinto cheiros e jeitos
Mas ninguém me vê...

Tanta gente ao meu redor
Conversam entre si
São pacientes,
Colegas, autoridades,
E ninguém me vê...

Não sabem o que perdem
Não sabem quem eu sou
Não sabem de meu potencial...

Perdem a chance de um bom papo
Não valorizam minha companhia
Nem sabem que será por tão pouco tempo...

Poderíamos sorrir entre si
Trocar piscadas, apertos de mão,
Beijos, afagos,
E conversar bastante...

Tenho histórias incríveis para contar
Já viajei muito
Li bastante
Conversei com pessoas muito inteligentes
E vivi...

Vivi em Estados incríveis
Convivi com a pobreza material em Pernambuco
E com a riqueza fraternal destes mesmos pernambucanos,
Pesquei com senhores experientes
Que sabiam tudo sobre os rios, as luas,
E as formas de tirar o peixe do anzol...

Troquei informações com prefeitos
Fiz amizade com juízes
Conheci músicos famosos
Fui amigo de políticos...

E senti o amor de perto
Com mulheres especiais
Que se apaixonaram por mim
E que se deixaram me apaixonar por elas...

Vi a natureza do Nordeste
O sol secando riachos
Árvores quase mortas
Animais magros,
E também vi o mar
Pessoas bonitas e bem vividas
Belas por poder se cuidar
Com corpos esculturais
Andando na praia da Bahia...

Capitais e interior
Conheci ricos e pobres
Crentes e ateus
Homens e mulheres...

E hoje
Sou apenas um ser
Invisível
Me amedrontando
Causando cortes em meu inconsciente
Dando saudade quando fui poderoso
E tinha amigos à vontade...

O que é o poder?
Quando você o tem
Te traz tudo
Por conseqüência...

Quando você o perde
Ao poder
Você perde tudo...

E, na verdade,
Perde tudo o que não valia nada...

Sou invisível
Ando pelo corredor
Mas quando descobrirem quem eu sou
Vão querer me conhecer melhor
E será tarde
Pois já estarei em outra dimensão...





CULPA DO PAI

Eu tenho medo de gente
Eu tenho prazer na solidão
Eu tenho que ser prestativo
Eu tenho que ser honesto
Eu tenho que ser machista
Eu tenho que trabalhar
Eu tenho que pagar as contas...

Eu não posso chorar
Eu não posso beijar meu filho
Eu não posso passear com meu filho
Eu não posso ser rico...

A culpa é do meu pai...

Que me ensinou que homem não chora
Que me ensinou que homem é quem manda em casa
Que me ensinou que homem põe dinheiro em casa
Que me ensinou que dinheiro é melhor que amor...

A culpa é do meu pai...

Que nunca chorou
Que nunca me beijou
Que nunca passeou comigo
Que nunca foi rico...

Desculpa pelo mal que te faço.
A culpa é do meu pai...





PLANOS PLAUSÍVEIS

Casas?
Carros?
Fazendas?
Que nada!
Eu quero muito mais...

Eu quero paz...

Onde se vende?
Quanto custa?
Não sei...

Meus bens não me trouxeram a felicidade.
Vendi a casa
Roubaram o carro
Perdi os imóveis e o dinheiro...

Agora vou mudar minhas escolhas...

Quero uma varanda
E ver o mar, dali.
Quero cerveja gelada na mão,
Um cachorro deitado aos pés,
O som ligado...

Quero andar de mãos dadas com meu amor.
Sentir o mar, a areia da praia, o sol,
Poder perceber a beleza que é viver
Sem dogmas nem medos...

Quero asas!
Quero voar.
Quero meus sentimentos pulsando...
Não quero dinheiro...

Tudo bem.
Quero o suficiente para suprir as necessidades...

Quero trabalhar
Mas, por prazer,
Não por obrigação...

Quero escrever.
Quero ser escritor.
E morar à beira-mar...

Quero meu amor ao meu lado, sempre.
Acordando, almoçando, comprando, passeando...

Vivendo comigo...

Quero sentir seu corpo,
E mostrar meu calor...

Quero que meus filhos me amem
Pelo menos a metade que eu os amo...

Quero ser feliz, sim, por que não?
Acho que é possível,
Acho que sou capaz...

Porque felicidade pra mim é a paz...



COMO UM FILME

A minha vida é um filme
Tantos personagens e locações
Tantos encontros e desencontros
Tantos desdobramentos...

Às vezes é uma tragédia
As coisas acontecem
Não seguem roteiro...

Às vezes vira comédia,
Em outras, terror.
Sofrimentos passam pelos meus dias
Trazem crescimento
E derrubam na mesma proporção...

Sexo, drogas e rock and roll
Misturam-se em noites mal dormidas
Mas, bem vividas...

Trabalho e romance,
Aventura e balada,
Compõem o meu dia-a-dia
Trocando figurinos e maquiagem...

Rotina...

Acendo o cigarro,
Pego um uísque,
Dão close-up.
Captam minhas preferências...

Marketing...

Todo dia é dia de filmagem
Estou sempre cansado
A correria é enorme...

Vou contando os dias
Esperando a estréia.
Com quem ficarei no final?
Como será o final?
Como morrerei no final?

Afinal, todos os finais são iguais...



BRAÇOS ABERTOS

O cravo fincado
Mão direita
Mão esquerda
Pés...

Braços abertos
O sol queimando
A sede aumentando
A dor...

É como se visse
Pessoas chorando
Alguns apostando
Outros ignorando,
Sem sentimentos...

É como se sentisse
O último suspiro
O último pensamento
Perdão...

O terremoto
A ressurreição
E o milagre...

É como se pudesse
Sentir
Com um coração humano
O poder de Deus...

Não posso...





ANDARILHO 2

Sem ninguém ao meu lado
Eu ando pelo mundo...

Sem destino,
Sem rumo,
Apenas ando...

Onde vou chegar?
Não sei e nem estou preocupado...
Só sei que vou continuar minha caminhada
Apreciando a natureza
Sentindo a Força Cósmica
Dentro de minha alma...

Já falaram que é uma fuga
Mas eu não concordo.
Eu acho que é uma busca...

De quê? Pra quê?
Não sei, não encontrei ainda...

Meus dias não são iguais.
São dias, apenas,
Com coisas simples,
Pessoas simples,
Que aparecem e se somem...

As emoções são diferentes
Mas são mais fortes agora...

Quebrei minhas correntes
E fiz meu caminho,
Criei novas estradas...

Sou andarilho,
Cansei de andar em trilhas já desbravadas...


JESUS

Lá está ele
Crucificado
Olhando a multidão aos seus pés
Permitiram seu sofrimento.

Um exemplo político
Ou um ato religioso...?

Sua mão direita dói mais que a esquerda
O cravo, pregado, pegou algum nervo.
Seus pés também doem
Mas, menos...

Olha para cima
Seus criadores ainda não apareceram
Como haviam prometido...

O tempo passa
Ele não tem mais forças.
Ele tinha feito a sua parte no plano...

Além de carregar a cruz
Foi pregado
Impediram seus movimentos
Tentaram destruir um mito...

Ele vê a luz se aproximando
E exala seu último suspiro.
No mesmo instante um raio o tele-transporta
Causando um enorme estrondo
Um terremoto...

Já na nave, recupera o fôlego
É muito bom voltar a ser luz
E não ter aquela carne como moradia
Tão frágil...

Três dias depois ele volta
Aparece para alguns
Uma visão como a carne
Conversa com outros
Resolve extinguir aquela carne
Que iria se decompor
Como um resto de nada...

Seus criadores estão satisfeitos em tê-lo submetido àquela missão
Sucesso total
Para dar regras aos humanos
Uma lei natural a ser seguida
Inexistente no papel
Influência psicológica...

O pecado foi criado
O perdão estava inspirado entre todos
Um regulamento
Ordem...

E voltam para Antares
Reverenciar o seu Deus único
Como também faremos daqui a algum tempo...

Um regente único de todo um Universo...



PÁSSARO

Como um pássaro
Que cruza os céus
E pousa onde quer
Eu também sou livre...

Eu ando por onde quero
Sem hora de partir
Nem hora para chegar...

Almoço quando quero
Às vezes ao meio-dia
E às vezes às nove da manhã...

Às vezes, apenas janto...

Vou dormir na hora que escolho
No lugar que bem entender:
No banco da praça
Na areia do mar,
Nem preciso apagar as luzes,
Pois as estrelas me iluminam
E a lua brilha só para mim...

Como um barco
Singrando o rio
Eu ando pelas ruas
Conhecendo a vida
E aprendendo todos os dias
Que é possível ser feliz...

Eu canto, eu grito,
Eu corro, eu paro,
Eu vou, eu fico,
Porque eu sou livre
E ninguém vai tomar isso de mim...

Você também pode ser livre,
Mas, não demore,
Amanhã pode ser tarde demais...



ANJOS E DEMÔNIOS

Meu anjo
E meu demônio
Brigam incessantemente
Dentro de mim...

Pedem espaço
Prioridade
Exclusividade...

E eu nego
Aos dois
O controle de minha vida
O controle de meus dias
O meu destino...

Eu controlo meu anjo
E sou mau.
Como um lobo, atacando criancinhas;
Como um pirata, pilhando cidades;
Como um estuprador, sem escrúpulos;
Como o mal...

Eu também controlo meu demônio
E sou bom.
Na caridade que faço para as instituições
Ao ajudar a velhinha a atravessar a rua
Ao afagar carinhosamente a cabeça da criança doente
No amor...

E faço minha vida
Dou os meus passos.
Às vezes aceito o demônio
Apimentando as coisas,
Às vezes solto meu anjo
Apaziguador...

E sigo,
Sorrindo e feliz,
Por saber que sou eu quem está no poder
E não o anjo
Nem o demônio...



INFANTILISMO

Depois de tanto brincar de esconde-esconde
A gente se descobre,
Se acha,
E se encaixa...

Você, pura como um anjo,
Vira boneca em minhas mãos.
Eu, boêmio perdido,
Viro robô nas suas...

Voltamos a uma infância utópica...

Como pião, rodo para te fazer feliz.
Igual a um carrinho de rolimã,
Desço ladeiras para te completar...

Faço e desfaço de minha boneca
Troco roupas, dou banho,
Crio histórias,
Brinco de casinha...

Você joga bola, usando-me,
Joga-me na parede,
Volto às suas mãos,
E sinto prazer em cada jogada...

Moleca, sapeca,
Moleque, sacana.
Fazemos de nossa velhice, uma infância...

Para a eternidade...





VOZ

Entre duas pessoas é bate-papo
Sozinho é monólogo
Em grupo vira reunião
No virtual é conferência
No celular é ligação...

Acima do tom torna-se grito
Desespero
Loucura
Berro
Exagero...

Abaixo da tonalidade vira cochicho
Gemido
Resmungo
Segredo
Sussurro
Fofoca...

Com sorrisos é piada
Com lágrimas é notícia ruim...

No palanque é discurso
Na escola é aula
No hospital é consulta
Em casa é educação...

Inteligente é solução
Insistente é incômodo
Autorizada é livre-arbítrio
Proibida é ditadura...

A minha voz
É seu conforto.
A sua?
É minha paz...


NOITE FRIA

O vento frio
Invade as frestas das telhas
A fechadura da porta
O vidro quebrado da janela...

Atinge meu pescoço
Desce pela espinha
Chega até o mais profundo
Do meu âmago...

Arrepio...

A minha roupa é insuficiente
Para tanto frio...
Minha coberta é pouca
Minhas meias não me esquentam
Preciso de algo mais...

Abro o uísque
Uma dose apenas
Desce queimando...

Sem gelo, claro!

Mais uma dose
Para ter a certeza de que ficarei melhor
Nesta noite fria...

Mesmo assim
O frio continua...

Olho pela janela
A noite escura não esconde as estrelas
As luzes dos postes não iluminam o suficiente...

O silêncio lá fora
Faz mais frio que o vento...

Então, tudo muda,
De repente...

Você vem vindo
Andando calmamente
Linda...

O cabelo nos ombros
Blusa,
Chapéu,
Cachecol...

Linda,
Absolutamente linda...

Sorri quando me vê
Sorrio de volta...

Abro a porta
Você entra
Te beijo...

Mais tarde,
Que loucura,
Percebo que o frio se foi...
Mesmo sem roupas
Estamos tão quentes...

O amor nos esquenta...



PEDRA QUE ROLA

Eu não quero ser apenas uma pedra
Imóvel, sozinha,
Na praia
Tomando sol ou chuva
Sem possibilidades...

Quero ser pedra que rola
Não quero criar limo
Quero viver a vida...

Perdi o medo da chuva
O medo do mar
O medo da vida
O medo de amar...

O segredo da vida
É querer sempre ser o rei
Não apenas um príncipe
Muito menos um bobo da corte...

Todos somos iguais
Independente de tudo e de todos
E não podemos nos satisfazer apenas com gotas...

Sou capaz
Somos capazes
Somos mais...

É por isso que quero a chuva
Quero me molhar
Com a água da vida
Na maré do dia-a-dia
Onde as ondas me levem
Mas também me trazem
Para o amanhã
Para o próximo passo...

Pois sou pedra que rola
Como o Raul pediu para eu ser:
Uma metamorfose ambulante
Nesta sociedade alternativa
Que eu mesmo construí...



FIO DE VIDA

Os aparelhos sustentam tua vida
Respiras devagar.
Agora estás descansando
Como tanto quisestes na vida...

Teu espírito está dividido
Entre ir e partir
Deixar os prazeres da Terra
Ou desfrutar da paz do Além...

Apenas um fio te mantém conosco
Teu corpo não responde mais.
Uma falha humana,
Um problema mecânico,
Tudo pode acontecer e te perderemos...

Faltam três dias para acabar o ano
E apenas um fio te segura aqui.
Será que ouvirás os fogos estourando no céu
Como gostava tanto quando estavas lúcida?
Será que verás os brilhos que eles fazem
Faiscando labaredas coloridas nos céus?

A incerteza de mais um minuto conosco
É a mesma da eternidade do paraíso.

Siga teu caminho
Não te prendas a este mundo mesquinho
Onde sofrestes tanto...

Nem na tua despedida consegues ser feliz.
Tudo em teu corpo já parou
Apenas uma máquina te mantém aqui...
Parta, faça sua viagem.
Não leves nada contigo a não ser o nosso amor
A não ser a certeza de que farás falta
A não ser a dor que deixarás em não termos sua presença material...

Vá embora...
Siga teu caminho...
Obrigado pelo teu amor
Obrigado pelo que tu fizestes
Obrigado pelo amor que nos deu...

Mas, agora,
Vá, siga teu caminho,
Tenho certeza de que algo melhor te espera...



MARIONETES

Fios invisíveis
Seguram o Sol
Acima de nossas cabeças...

Os Planetas
Um a um
Estão pendurados no infinito espacial
Girando incessantemente
Em torno de si mesmos
E em torno do Sol...

Fios invisíveis
Brincando com os Planetas.
Um móbile...

Na Terra
Homens, como bonecos,
Andam pra lá e pra cá
Em carros, a pé,
Sempre em frente
Mesmo em marcha à ré...

Homens
Bonecos controlados por fios invisíveis
Como os planetas...

Homens
Que andam nas ruas
Nadam nos rios
Morrem em hospitais...

E se transformam em almas
Que voam
Para o Paraíso
Ou não
Manipuladas por fios invisíveis
Em enormes mãos celestes...

Homens
Bonecos
Marionetes de Deus...



VÉSPERA DE NATAL

Saio do Shopping
É Natal
Paro o carro
Sinal fechado
Vermelho...

Luzes e mais luzes
Em todos os lugares
Todas as lojas
Menos nos olhos da menina
Que me pede uma moeda...

Só uma
Qualquer valor
É véspera de Natal
Daqui a pouco o Papai Noel vai chegar...

Tenho
Mas não dou
Educativamente...

Dói o coração
E não consigo mais avançar
Quando o sinal abre
E volto no tempo
Quando não tinha carro
Quando não tinha casa
Quando não tinha moedas...

E vejo como mudei
E passei a valorizar o sistema
Econômico e social
E me afastei do bem
Das pessoas que amei
De gente bondosa
Do amor...

Quero acumular bens materiais
Ter crescimento profissional
Dinheiro, casa, carro,
Status, afinal...

Persegui o materialismo
Vivo em consumismo desenfreado
E só agora percebo
Que tudo desaba
Quando vejo a lágrima
Da menina no sinal
Com fome
Sem ninguém
Sem a ceia
Na véspera de Natal...



AMEAÇAS

Enquanto você
Fica me ameaçando
Não percebe que ela
Continua se arrumando
E cada vez mais bonita
Para a rua vai...?

Seu cheiro é gostoso
Seu vestido, provocante,
E você ameaça a mim?

Se fôssemos animais
Você estaria perdido
Com uma fêmea assim...

Ameaçar não adianta
Você precisa agir...
Existem possibilidades amargas
E outras tão doces
E fáceis...

As amargas incluem
Correntes e grades,
E as doces giram
Em torno do amor...

Amar incondicionalmente
Pensando na fêmea, apenas nela,
E gerando prazer
Em retorno aos seus atos...

Quando fizer isso
Ela nunca mais sairá do seu lado
Pois você conquistou seu coração...

No entanto,
Se sua raiva for muita,
É mais fácil matar a cadela
Do que um cachorro inimigo
A cada dia...



DIFERENÇAS

Eu sou um nome
Escolhido ao nascer
Por pessoas até então desconhecidas para mim...

Eu criei o poeta
Tirei-o de dentro de mim...

Hoje, somos um só,
Separados apenas por traumas e preconceitos
Que adquiri em minha existência...

Eu sonho,
O poeta realiza;
Eu desejo,
O poeta se sacia;
Eu quero,
O poeta tem...

Quando olho no espelho
Não sei quem sou
Mas quando falo com as pessoas
Sou o nome, cheio de razão
E lógica...

O poeta é louco,
Eu o censuro;
O poeta ama,
Eu tenho medo;
O poeta é sensível,
Eu sou durão...

Eu quero ser o poeta
Mas ainda estou no ovo
Sendo chocado
Aos poucos
Preparando-me para nascer...

Estou quase pronto...



A MOEDA DO PALHAÇO

Em meu carro
Baixa velocidade
Luz verde
Semáforo
Amarelo
Presto atenção
Vermelho
Paro
Atrás de outro carro...

Na frente
Surge o palhaço
Roupas coloridas
Nariz vermelho
Sorriso pintado na cara...

Faz malabarismo
Usa três peças
Não demora muito
Mas impressiona...

Sorri
E segue em direção aos carros
Mão estendida
Receber pelo trabalho...?

Olha pra mim
Balanço a cabeça
Carro a carro
Outros me repetem
E a mão, estendida,
Continua vazia...

Ele volta
Encosta-se no poste
Abaixa a cabeça
Está triste...

Vi uma lágrima?
Não sei
Pode ter sido impressão...

Tudo que ele queria era uma moeda
Eu tinha diversas
Todos tinham
E ninguém as deu...

Verde
Sigo em frente
Afinal, a vida continua,
Mesmo que a lágrima do palhaço
Jamais saia da minha mente
Por me omitir
Por não valorizar a arte
Apresentada por um artista
Corajoso e valente
Em um sinal fechado
No sábado à tarde
Em São Paulo...



SOL NASCENTE

O sol nasce
O prazer é indescritível
Vivo
Sinto o ar
Oxigênio
Entra nos pulmões
Invade o cérebro
Sensações...

A praia
Deserta
Me desperta o espírito
Me prepara
Vou te ver
Daqui a pouco...

Nem dormi
Fiquei aqui
Bebi um pouco
Algumas latas
Cochilei
Não quero atrasar
Muito menos faltar...

A água subiu
A maré chegou
E me acordou...

Te vejo
Vindo devagar
Sorrindo
Olhando o mar
Pegando conchinhas
Dançando...

Sorri ao me ver
E me abraça
E me beija...

Eu não vivo sem você...



CEMITÉRIO

Puro silêncio
Nem um pio de coruja
À espreita
No galho da árvore
A me olhar...

Pernas bambas
Sigo entre túmulos
Estátuas que me cercam
Anjos com asas
Algumas quebradas...

Um uivo
Talvez um cão
À procura da parceira
Ou talvez não...

Gotas de orvalho
Caem das árvores em pingos,
Uma cerração
Impede a visão completa,
Uma ventania...

Uma ventania
Repentina e assustadora
Me faz arrepiar...

Outro uivo
Mais alto
Mais forte...

Sinto medo
Quero correr
Mas não consigo
Minhas pernas não deixam...

Estátuas criam vidas
Anjos voam
Túmulos abrem
Mãos e cabeças surgem do nada
Mortos
Zumbis...

Eu corro!
O portão do cemitério não está longe
Fecha-se lentamente
Preciso ser rápido...

Eu corro
Consigo sair
Por pouco
Muito pouco...

E não vejo mais a cerração
Nem escuto os uivos
Nesta noite linda
De lua e estrelas...

Do lado de fora
Do cemitério...



JUREI

Eu jurei
Uma vez, duas, três...

Tantas vezes jurei
Que nem me lembro mais
E hoje
Tenho que falar
Que quebrei minhas juras...

Jurei que não ia mudar
E mudei;
Jurei que não ia ficar
E fiquei...

Fiquei porque te amo
Mudei porque me amo...

A minha roupa não é a mesma
Percebi que o vermelho me cai melhor
E aderi ao encarnado
Por dentro e por fora...

Quem ficou feliz foi o cigano
Ele sabe, ele sabe...

Uso tênis
Mesmo que você prefere sapatos,
Uso camisetas
E você prefere camisa social...

Ah, que delícia...

A minha liberdade permite que eu faça
Mesmo que você não goste,
E a mesma liberdade me permite te amar
Mesmo que você não queira...

E te amo
E vou te conquistar
Sendo como sou
E continuando sendo assim
Um camaleão
Adaptando-se às mudanças...

Ah, que delícia...

E fico
Sempre estarei aqui
Ao seu lado
Quase sombra
Mesmo quando não há sol...

Fico porque te amo
Fico porque me amo...



RETAS CURVAS

Tem certos dias que a tristeza aparece sem explicações.
Instala-se em vazios da alma,
Aloja-se em nosso íntimo...

- Um anjo triste - diria Renato Russo...

E o azul vira cinza
E as retas, curvas...

Todos os copos pela metade estão quase vazios...

Não queria sentir isso, mas sinto.
Queria não sentir nada,
Nem ódio, nem tristeza,
Nem amor, nem alegria...

E se sentisse, que gritasse, que brigasse...

Que agisse como um louco
Dando murros em paredes
Chutes em portas
E fizesse caretas
Assustando as pessoas...

Não quero mais falar nisso.
Não consigo pensar
Não vou mais escrever...

Quero dormir...

Quem sabe os dias voam
E um novo tempo chegue
Em um novo ano
Numa nova vida...

E o anjo sorriu, mesmo triste...


ANATOMICAMENTE PERFEITOS

A perfeição dos encaixes
De tamanhos e posições
Horizontal e verticalmente
Homem e mulher
Eu e você...

Minha boca
Combina com teus seios,
Minhas mãos
Combinam com tuas coxas,
Suas curvas
Preenchem as minhas...

Côncavo e convexo
Somos dois
Quando separados,
Viramos um
Quando juntos...

E por que separar?

Vem,
Me preenche com seu corpo
Que te completo com o meu...

Me usa
Como eu te uso,
E deixa eu te fazer feliz
Como você me faz...





AGULHAS

Quando a agulha entra,
Não dói.
Estou anestesiado de ódio...

A seringa vazia
Vai se enchendo aos poucos
Com meu sangue vermelho
Quando vou puxando
Devagar
Bem devagar...

Uma seringa
Duas, dez...

Tantas quantas forem necessárias
Vou tirar de minhas veias.
Quero me ver livre deste sangue
Viciado em você
Impregnado por você...

Onze, doze,
Vinte...

Não tenho mais forças
Mas preciso continuar.
Tenho que tirar você de mim
Pois, agora que não está mais na minha mente,
Ainda te sinto no coração...

Vinte e uma, vinte e duas...

Espero me ver livre deste sentimento
Quando não houver mais sangue
Em meu coração...





PASÁRGADA

Estou indo pra Pasárgada
Eu e meu amigo Manuel
Que é amigo do Rei...

Lá em Pasárgada,
Teremos as mulheres que quisermos
Nas camas que escolhermos...

Não sei onde fica Pasárgada
Foi o Manuel quem me contou,
Mas, estou indo pra lá
Pois ele diz que lá tem tudo
Que é outra civilização...

Vou em busca de mulheres
O Manuel me disse que lá
Só tem prostitutas bonitas
Que usam preservativos
Para evitar concepção...

O Manuel, meu camarada,
Que é amigo do Rei
Vai me apresentar muitas mulheres
Para eu poder namorar
Na cama que escolher...

Eu adoro o Manuel
Pois ele é amigo do Rei
Lá em Pasárgada,
Que fica perto de Maxaranguape
Onde tem mar
E também onde tem rio...

Quer ir também?
Vamos embora pra Pasárgada...?




SILÊNCIO

Se eu pudesse ser o infinito
Gostaria de ser, apenas,
O silêncio...

O silêncio dos ventos
Calmos
Que nem soprariam...

O silêncio dos pássaros
Calados
Em seus poleiros...

O silêncio das folhas
Presas
Em seus galhos de árvores...

O silêncio dos mudos,
Dos surdos,
Dos considerados normais...

Nunca seria o antes,
Talvez nem o durante,
Com certeza o depois...
Na canção, seria a pausa,
No andar, seria a queda,
Na vida, seria a morte...

Não queria ser muito
Só o silêncio me basta...





SEM LÓGICA

Tenho sentimentos
Amor, ódio, paixão e loucura,
Que se revezam
Sem sentido...

E para quê o sentido
Nesta vida insana que vivo?
Se sou pedra que rola
E não cria limo
Para quê a lógica que você me pede...?

Quero dizer coisas sem sentido
Quero me apaixonar todos os dias
Quero chorar e sofrer
E também gargalhar de alegria...

Não quero ser perfeito
Apenas viver meus erros e acertos
Como um ser humano qualquer
Sem privilégios...

Não quero ser futuro nem passado
Apenas presente
Ou, talvez, um presente,
Entregue nas mãos dos amantes
Falado por lábios apaixonados
Palavras que escrevo...

A lógica na minha vida
Está na falta dela,
A lógica...





COMO UMA ÁRVORE

Sou como uma árvore
Previsível por estar estagnado
Acomodado por natureza
Abençoado também
Admirado ou rejeitado
Por ser
Apenas por existir...

Sou uma árvore
Cresci, finquei raízes,
Espalhei sombras
Produzi frutos
Fui útil...

Uma árvore
Cujas raízes crescem a cada dia
E começam a incomodar
Arrebentam raízes
Precisam ser cortadas...

Árvore, apenas,
Comum, singular,
Mas sem vulgaridades
Fixo, mas não eterno,
Com brotos...

Poda,
Preciso de poda,
Corte os galhos desnecessários
Prepare-me para ser mais forte
A cada dia...

Dê-me sol
Dê-me água
Dê-me seu amor...

É pouco o que preciso
Para sobreviver...



DEUS

Meu Pai que estás no céu
Aí, sentado,
Tendo à sua direita, Jesus,
E à sua esquerda...

Meu Pai, eu não te peço muito
Talvez paz,
Talvez amor...

Talvez te peça apenas
Um ombro em que eu possa me escorar
Ou talvez que eu saiba servir de escora pra alguém...

Talvez dinheiro para a comida
Talvez saúde
Talvez uma família feliz
Talvez um bom trabalho...

Quem sabe pode ser sossego
Numa bela ilha
Ou numa bela praia...

Ou então que consiga aprender
A distinguir quando eu preciso sorrir
Ou chorar, quem sabe...

Talvez, meu Pai,
Que eu aprenda a valorizar os meus dons,
Aquele de falar,
O de ouvir,
E o de escrever...

Precisaria de sabedoria
Para perceber quão belos são meus filhos,
Que muitas pessoas me amam...

E eu não amo ninguém...?

É, meu Pai, que estás no céu,
Eu nem sei te pedir
Como posso te agradecer?

Então, vamos combinar uma coisa?
Você apenas me faz um boneco
E me usa
E me transforma
Conforme a sua vontade...

Mas, não faça as experiências que tens me feito
Como se eu fosse uma cobaia,
Um rato de laboratório...

Transforme-me em uma pessoa
Talvez um anjo
E que só faça o bem
Só coisas boas...

E que,
Quando eu mudar uma linha do que está escrito
Que seja para melhor...

Obrigado, meu Pai. Amém...