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Poesia 3082 – sobre meus medos


meu medo
está na porta do hospício
que me prende e se abre pra mim.

meu medo
está em meus amigos invisíveis
loucos que vêm e vão
enquanto os ponteiros noturnos rodam.

meu medo
está em minhas companheiras
esfrangalhadas e enfrangalheiras
carentes que se agarram ao cadáver que sou.

meu medo
está no sapato apertado,
na camisa colada,
na sunga sem volume.

meu medo
está na gola que me sufoca,
no beijo de açúcar,
na mão em minha bunda.

meu medo
está no transtorno compulsivo,
em corrigir palavras,
em ouvir minha voz.

meu medo está na membrana que prende minha língua.

meu medo
está na bala perdida,
no punho fechado,
no estilhaçar do copo na parede,
no olhar penetrante do maconheiro.

meu medo
está nas impotências,
na falta de músculos,
no quebrar do vidro de meus olhos postiços.

meu medo
está na rejeição;
está na insignificância;
está no nada.

meu medo
está na falta do saldo bancário,
está no carro que não tenho,
está na viagem que não fiz.

meu medo está em mim.
está no que sou
e no que eu poderia ter sido.

meu medo está em minha inconsciência como traumas.

meu medo
está na minha morte
que o fará diminuir-se ao meio.

aliás
meu medo
não está na morte.


meus medos estão no meu viver…

Jorge de Siqueira


Poesia 2812 – come sonho


seu beijo
doce
como sonho.

doce.

seu beijo
pesadelo doce que me segue
e só some
na insônia.

seu beijo.
você.
doces.

como sonhos.
como um sonho.
eu como sonhos.
e como sonho...

com seus beijos.
doces.

come sonhos
e me beije.


doce...

Poesia 2811 – pare no poema


para mim
para você
para o poema.

para,
repara.
pare!
repare!

para!
para o poema, para!
pare!

pare em mim.
pare em você.
pare.
que pare.


pare no poema.

Poesia 2810 – sonhos


espaço.
amores.
medos.

família. amigos. passado.

namoro.
sexo.
mentiras...

sonhos.

a morte
deve ser um sonho.
no entanto,

eterno...

Poesia 2809 – dia de branco


o fantasma
me pergunta:
- por que esses olhos tão arregalados?
- é pra não te ver melhor...
- pra que este cobertor tão quente?
- é pra não te sentir melhor...

às cinco da manhã os olhos vão se fechando. que gostoso. o sono chega. bem devagar, contando carneirinhos, ele chega. vou dormir. vou sonhar.
o galo canta.

dia de branco...

Poesia 2808 – gases


amora dá gases?
uva dá gases?
batata doce dá gases?
repolho dá gases?


viver dá gases...

Poesia 2807 – fuso horário


discutindo com meu sono
que não chega
quando preciso.

meia noite
uma hora
duas.

confuso horário.

meio dia, sono.
uma hora, sono.
duas da tarde, sono.


meu sono é japonês...

Poeta 2806 – poeta? eu?


hoje
de cabeça pra baixo
escreverei.

por quê?

quem sou eu?
poeta?
poeta era quintana
vinícius
drummond
bandeira.
eu?

nem sei rimar.

sou tudo

menos poeta...

Poeta 2805 – a caneta


faça um nome!
ela faz.
faça uma frase!
ela faz.
faça uma uma mentira!
ela faz.

apague tudo!
ela se nega...


igual a mim que fala tanto...

Poeta 2804 – fragmentos misteriosos



i

deitado
o sono não vem
já é amanhã
e o sono não vem.

pra quê dormir?
perder tempo...

ii

meu coração já não me pertence.
nem a ninguém...

iii

atenção!
sentido!
faculdade!

marche!!!

iv

agora eu tenho site.
agora eu tenho aplicativo.
pra quê?

maldito ego imposto...

v

qual é a ordem?

vi

eu não sei as respostas.
eu não sei as perguntas.

não dá pra ser feliz...

vii

teatro.
vídeo.
teatro.
vídeo.

ego egoísta...

viii

a ordem?
1º faculdade: estágio
2º faculdade: tcc
3º faculdade: provas
4º eu.

último semestre...

ix

segundo andar
alguém lá em cima
ainda acordado.

ah.
embaixo também...

x

mistérios.
o que é melhor?
a solidão da liberdade
ou o companheirismo da prisão?

xi

quando começa o horário?
o verão já começou...



Poesia 2803 – caixa de mistérios



abra!
abra a caixa!
tenha coragem!

mas, cuidado!
você só pode abrir uma vez.

então
abra os olhos
antes da caixa.

todo mistério
existe antes nos olhos
e só depois
no pensamento.


agora, abra, se tiver coragem...

Jorge de Siqueira

Poesia 2802 – vivo-me nada


tudo
é mais importante
que nada?

porque
em tudo
existe você.


e vivo-me nada...

Jorge de Siqueira

Poesia 2801 – no espelho com quintana


no espelho
meu pai me sorri
ruga a ruga
dia a dia.

na fotografia
meu filho encara-me meu neto.

um dia
meu neto
no espelho
nos verá:
eu, meu filho e ele.
de uma vez.


ruga a ruga...

Jorge de Siqueira

Poesia 2800 - Que comece a colheita

a morte
vem
ali na esquina.
de tão longe que eu a via
hoje
a vejo ali
conversando com o jornaleiro da esquina.

acena-me.
oferece um café.
dá bom dia.

eu me calo.

por quanto tempo eu a evitarei?
não sei.
não me sinto preparado para jantar de encontro.

e depois?
o que há depois?
nada.
há os que ficam
os que vão dividir meus bens
e minhas saudades.

há os que esquecerão
e os que se lembrarão
de mim
de quem fui.

mas estes também irão jantar conosco...

meu computador
meu gato
minha cama
minha moto.
tudo irá jantar conosco
um dia.

alguns
rapidamente
como uma faísca
uma mosca.
outros
daqui a muito tempo
como tartarugas.

tudo perece...

há o filme que não vi
o livro que não li
tanta coisas que não fiz.

mas são meus desejos
meus sonhos
que nunca contei a ninguém
que sumirá
na poeira do cal.

levarei comigo
vontades
planos
traumas
medos.

eu sou ridículo.

vivo preocupado com os outros
o que dizem
o que acham
o que veem em mim
o que adoram em mim.

vivo pensando no que os outros acham
e não faço nada.

macular tradições?

penso demais
vivo de menos.

que cor está na moda?
que filme não posso perder?
careca ou cabeludo?
gírias?
educação?

pega a fila, jorge!
pela a fila indiana infinita da sociedade.

por quê?
por que viver assim?
deixar de fazer
deixar de gostar
deixar de tudo.

por quê?

porque os outros podem não gostar.
por que os outros isso.
porque os outros aquilo.

ridículo.
ridículo como meus pensamentos ridículos.

eu não gosto de abacate
mas está na moda comer abacate
então eu como abacate
como todos comem abacate.

devo ser magro
devo ser forte
devo ser igual
devo ser normal.

e se for diferente?

serei excluído.
não vão me contar segredos
não vão me convidar pra balada
não vão me colocar no amigo secreto
não vão me chamar para o aniversário de um ano e meio do quinto filho.

excluído não posso viver.
tenho que saber os segredos
tenho que ir pra balada
tenho que participar do amigo secreto
tenho que ir no aniversário de um ano e meio do quinto filho.

senão eu não serei normal.
e não vou dormir.
depressão.

ser igual é legal.
ser igual é legal.
repita comigo:
ser igual é legal.
ser legal é igual.

ops.

ser igual me deixará feliz?
todos são felizes?

eles não pensam
nem se preocupam
com isso.

a vida é fútil.
a vida é volátil
a vida é fumaça.

foda-se a vida.
grande merda viver a vida dos outros na minha.
grande bosta!

viver é diferente.
não é isso.
viver é fazer o que se gosta
viver é ser iluminado na escuridão
viver é iluminar lá dentro
sem medos
sem traumas.

viver sem vergonhas...

viajar
se quiser viajar.
vestir vermelho
se quiser vestir vermelho.
comer arroz com brócolis
se quiser comer arroz com brócolis...

viver é fazer o que quiser sem medos.

viver
é ócio o dia todo
ou trabalho.
viver
é sexo a todo momento
ou a assexualidade.
viver
é pular da janela do vigésimo andar
ou se apaixonar.

viver
é fugir do ponto turístico
daquele
que todo mundo visita.
viver
é não trazer a foto da torre famosa
e trazer de uma formiga incrível.

viver
é ser diferente
e até
ser igual.

mas é fazer o que se quer.

nossa!
você não trouxe foto da torre?
todo mundo traz!

não!
viver não é fazer o que todo mundo faz
só porque todo mundo faz.
viver é fazer o que você quer fazer
porque você quer fazer.

ser igual?
fazer igual?
viver igual?
morrer igual?
desaparecer igual?

sei que vou morrer
e desaparecer
sim
eu sei
mas quero aparecer
agora
neste momento.

não é “aparecer” no jornal
na tv
na “globo”.

não.
quero ser alguém
para mim
para meus filhos
para minha família.
quero que se orgulhem de mim
por ser eu
ser quem eu sou
do meu jeito
mesmo louco ou desajeitado
mesmo pobre e preguiçoso
mesmo rei ou deus.
mesmo sendo eu.

ainda me preocupo
sim
muito
com os preconceitos.

sim
ainda não sou livre
senão
agora
não estaria aqui
estaria em maxaranguape
ou boipeba
ou caravelas
ou naquela cidade de pescadores onde todos conhecem todos
e todos são iguais
porque são diferentes.

sim
ainda não sou livre
visto uniforme
camisa branca
calça preta.

sim.
ainda luto para ganhar dinheiro
e ganhar muito
e mais
e mais.

cada vez mais.

sim.
sou igual.

(chorando...)

sim. sou igual a você. igual a todo mundo.

mas
há luzes se acendendo
sinais de alerta surgindo
sonhos piscando
planos emergindo.

além de tudo
uma perda.
a perda dos medos
dos traumas
do próprio preconceito de ser diferente.

estou mudando.
não é amadurecimento.
não.
já estou fruta madura.


que comece a colheita...

Jorge de Siqueira