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Poesia 2780 - A morte do mendigo no inverno

o calendário nem virou
e os olhos cinza
dele
se fecharam para sempre.

o frio congelou seu sangue.

quem ele era?
de onde veio?
para onde ia?

sua história saiu nos jornais
nos rádios
e na televisão.

sua insignificância social estampou a primeira página!

famoso
recheou de ossos um caixão barato
doado pelo município.

eu não fui ao seu enterro.
você não foi.
ninguém foi.

apenas escrevi um post no facebook...

famoso
como nunca quis
se escondia atrás de roupas sujas
e de uma garrafa de cachaça.

famoso
se se visse nos jornais
assim
tão velho e acabado
morreria de novo.

dessa vez de desgosto...


e em seu bolso, na primeira folha de um caderno velho e amassado havia uma poesia que começava assim: abandonado pela sociedade, eu...”

Jorge de Siqueira


Poesia 2779 - Fragmentos gelados

a cor
reflete em seus olhos:
o cinza
da chuva fria que cai
da nuvem cinza que voa
da parede cinza que protege.

#

o som
que me acorda
que me aflige
vem de longe:
de um despertador digital que não acorda seu dono
de motores de caminhões potentes em subidas
de meu coração ebúlico
de meus pensamentos...

#

nenhum amor
nenhum
deve tirar teu sono.

a não ser que seja por calor...

#

frio.
camadas de roupas
que atrapalham
na urgência do xixi.

#

sem dinheiro.
dia catorze.
com dinheiro.
dia quinze.

a metade para a metade final do mês...

#

meio que metades:
salário
decisões
vida.

mas é um meio positivo...

#

zero grau!
nem positivo
nem negativo.
brincadeira que deixa os caipiras aflitos:
primeira chuva de gelo
primeira camada de gelo
primeira geada.


e primeira morte de um andarilho...

Jorge de Siqueira


Poesia 2778 - Deus das máquinas fotográficas

fria
fica ali
sem chamar a atenção.
dia após dia.

seus olhos sem pupila
sua boca sem hálito
seu peito sem coração.

fria
em noites congelantes.
imóvel
lar de pombos.

sempre de cabelos penteados
sempre de roupas bem passadas.
sem angústias
sem dores
sem sofrimentos.

e sem alegrias.

fria

e cinza...

Jorge de Siqueira

Poesia 2777 - História de fantasmas

as gotas
batem na janela
num barulho confortável.

dá sono.

mas, e os fantasmas?
molhados, não me deixam dormir.
vai um
vem outro.

brincam com meus neurônios
esperando o comprimido
que os fará dormir.

passado é uma história que os fantasmas vivem nos contando...

Jorge de Siqueira




Poesia 2776 - Coitados dos que só se amam a dois

o amor é um fogo que arde sem se ver?”
e daí?
quem não ama não arde?

arder em chamas
é difícil
muito difícil.
principalmente
para os que só se completam no par.
aí, sim,
é solitário andar por entre a gente...”

mas
quando se aprende a amar-se
não há solidão
pois
na solidão há amor.

um, nesse caso, é um par.

eu mais eu
você mais você
amemo-nos.

daí

é um estar-se preso por vontade” também...

Jorge de Siqueira

Poesia 2775 - Graus

a quatro
há frio
quase congelante.

e há amor que esquenta.

a quarenta
há calor
quase incendiário.

e há amor que refresca.

a quatro
ou quarenta

o amor nos deixa a mil...

Jorge de Siqueira

Poesia 2774 - Bom humor

pois é.
dizem que brinco demais
que não sou sério
que não levo nada a sério.

não!
não é isso!
eu sou leve.

esse meu sorriso
é uma apenas um mania:
uma mania de ser feliz...

Jorge de Siqueira



Poesia 2773 - Copiando

se sou um beijo, me beije.
se sou um soco, me soque.
se sou um louco, me enlouqueça.

se sou um deus, me adore.

Jorge de Siqueira

Poesia 2772 - Ódio

odiamos.
odiamos tudo.
odiamos todos.

e vem a política e odiamos quem não concorda conosco.
e nossos preconceitos nos fazem odiar muito.
e odiamos.

no trabalho
na família
no trânsito
na vida virtual.

e haja ódio!

e onde vamos parar?
o que queremos?
quem nos manipula?

o ódio inibe o amor.
o amor constrói.
isso não é nenhuma novidade.

além de odiarmos, somos contra.
contra tudo
contra todos.


por que não ser a favor?

Jorge de Siqueira

Poesia 2771 - Às vezes

se eu fosse
apenas um homem
um homem
não sei se seria seu
ou de quem seria
mas seria um homem.

se eu fosse
eu
com a primeira letra em maiúsculo
eu seria um nome
de santo, talvez
mas seria mais do que sou
já que nem sei quem sou.

às vezes não sei quem sou
ou o que faço aqui.
às vezes fico tão perdido
que nem me conheço
sou outro
diferente de eu santo
diferente de eu homem.

às vezes sou todos os eus
todos os homens
e me perco confuso por ser e não ser
eu
ninguém.

às vezes eu não queria existir
mas existo
e me lembro que sou homem
com agá maiúsculo.


mas é só às vezes...

Jorge de Siqueira

Poesia 2770 - Saudades de mim

o andarilho chora
sente saudades de mim
me quer de volta.

por quê?
não volto.
vai sozinho...

aliás
quando você encontrar aquela ilha
deserta
passível de ser contornada andando
venha me buscar.

daí vou contigo.
agora, não.

mas deixo as luzes acesas agora...



Jorge de Siqueira

Poesia 2769 - Eu fiz

não matei
não roubei
não traí
não menti.

ops.
matei formigas
roubei beijos e grampeadores
traí confianças e convenções religiosas
menti pra caramba!

mentira!

eu nunca roubei beijos...

Jorge de Siqueira

Poesia 2768 - Quarenta graus ou mais

o sol
queima
costas, braços, pernas.
quarenta graus!
joão pessoa!

o mar resfria.
o coco resfria.
a cerveja resfria.

a felicidade resfria...

calor
acima de quarenta graus
queima em mim.


amor...?

Jorge de Siqueira

Poesia 2767 - Tudo no nada

e tudo
do nada se fez.

e nada
mudou.

no tudo.

no tudo
existe
o nada.
mas
no nada
inexiste

tudo.

Jorge de Siqueira



Poesia 2766 - Condomínios

empoleirados.
enfileirados.
entra um carro.
sai um carro.

homens
um após outro
saem para o trabalho
a pé
ou em seus possantes carros.

oito horas depois voltam.
sobem aos poleiros
banham-se
escovam-se
fodem-se
dormem-se
acordam-se
e recomeçam-se a “viver”.

formigas humanas...

e eu?
subo na moto
o portão se abre
eu vou.
e oito horas depois eu volto.

calça preta
camisa branca

e o coração cinza...

Jorge de Siqueira

Poesia 2765 - Velho

velho!
é assim que sou:
velho!!!

mole
não aguento nada.
remédios?
diversos
para tudo.
dores?
e sintomas das próximas.

velho!
velho!
velho!


enfim chegou em mim...

Jorge de Siqueira

Poesia 2764 - Ar refrigerado divino

frio!
são pedro
ligou o ar refrigerado
em nós.

mãos frias
pés frios
nariz frio
orelhas frias
rosto frio.

coração quente...

pegando fogo!
incendiado!
ardendo em chamas!


nenhum frio congela o amor...

Jorge de Siqueira

Poesia 2763 - Abaixo dos vinte graus

depois de diversos sois
de diversos calores
a chuva trouxe o frio.

os pingos batem na janela
mostrando meu sorriso
mas não calam os caminhões
ali da frente
do escuro da estrada.

os pingos
cinzas
nessa noite
negra
me trazem paz.


uma paz abaixo dos vinte graus...

Jorge de Siqueira

Poesia 2762 - Deserto em mim

e
as entradas
em meus cabelos
aparecem
como se fossem
florestas devastadas.

um deserto
surge
em mim.


em minha cabeça...

Jorge de Siqueira

Poesia 2761 - Vida em cinzas

e a vida
estranha vida
enche de cinza
a vida da gente.

e há lágrimas
solidão
abandono.

pensamentos ruins
negativos
cinzas
vão e vem
vem e vão
como ondas em água doce.

é a vida! – dizem.

e
quanto mais velho
o cinza é mais cinzas.

Jorge de Siqueira




Poesia 2760 - Livro de religião

era uma vez...

vire a página
os capítulos correm
o protagonista sou eu
a história é a vida.

agora
toda a história mudou
romance à vista
personagens milenares.

milênios?
não
são apenas dias...

duvido!
essa história
é continuação.

religiosa?
espírita?
vidas passadas?

milênios?
é
devem ser milênios.

e o era uma vez
virou

é dessa vez...

Jorge de Siqueira

Poesia 2759 - Do eterno

o cérebro
ligado
abre meus olhos.

desligado
fechou os seus.

e agora
na hora do meu descanso
você vem
do eterno
e dilata minhas pupilas.

bebo comprimidos
e espero.
daqui a pouco apago
e me esqueço de tudo.

de tudo.

até do que nunca deveria esquecer...

Jorge de Siqueira



Poesia 2758 – Dona Júlia


dona júlia
que deus a tenha!

a vida é traiçoeira
permite que a morte
nos acabe assim
em uma bela história.

quem foi você?
forte ou fraca?
verdadeira ou pura farsa?
boa ou má?

quem foi você?

de que importa?
o ponto final foi colocado
e daqui pra frente
será apenas história.

só história.

a sinopse eu já sei
mas
e a biografia?

nunca saberei...


Jorge de Siqueira

Poesia 2757 – Ondas de barulho


os caminhões
como ondas
vem e vão
deixando um zumbido
em meus ouvidos.

hoje
meus neurônios estão agitados
não me deixam dormir.

hoje
querem
- como antigamente –
a mesa
o bar
o copo de uísque.

e os ponteiros giram
madrugada adentro
ao som de billie hollyday
em mil novecentos e pouco.

o olhar
distante
o pensamento
congelado
e a vida
em câmera lenta...


em super slow motion...

jorge leite de siqueira